Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Didáctica do Português – Língua

Materiais de Apoio a Professores

 

Docente: Armanda Costa

Discentes: Ana Rute Pereira, António José

                     e Sandra Correia

 

Público a que se destina: Ensino Básico (9º ano)

Tema: Leitura – Compreensão de Textos Argumentativos

 

 

 

 

Bibliografia de Apoio:

 

*        AMOR, E. (1993) Didáctica do Português: Fundamentos e Metodologia. Lisboa: Texto Ed.

*        ANTUNES, I.C., Aspectos da coesão do texto: uma análise em editoriais jornalísticos.

*        COSTA, A. ( 1998) “Saber Ler e Saber Ensinar a Ler” In Linguística e Educação. Lisboa: APL/ Colibri

*        DELGADO MARTINS, M.R, D.R.Pereira, A.I.Mata, M.A.Costa, L.Prista & I.Duarte (1992), Para a Didáctica do Português. Seis estudos de Linguística. Lisboa: Ed. Colibri

*        GIASSON, J. (1990),  A Compreensão na Leitura, (trad.) Ed. ASA

*        GRELLET, (1988) Developing Reading Skills. Cambridge: Cambridge University Press.

*        JOLIBERT, J (1991)  Formar Crianças Leitoras,(trad.) Ed. ASA

*        SOUSA, M.L. ,(1993)  A interpretação de textos na aula de Português, ed. ASA

*        VAN DIJK, T, “Attitudes et compréhension de textes” in Bulletin de Psychologie

 

Sítios da Internet consultados:

http://www.lafacu.com/apuntes/idiomas/clas_tex_grama/default.htm (18-03-2002)

http://www.terravista.pt/nazare/7129/Textos/TxArgumentativo.htm (14-03-2002)

http://www.ucasal.net/alumnos/material/discurso.htm  (18-03-2002)

 

 


 

DADOS

                    

                     

 

Editorial 1                                                                                                                

Diário de Notícias, 1 de Fevereiro de 2002, Sexta-feira

 

SAGA LUSA

 

O Euro 2004, o tal que foi apresentado aos portugueses como um desígnio nacional, já é um enorme espectáculo, ainda sem artistas da bola nos relvados e multidões nas bancadas. O rigor anunciado e reafirmado nas contas das obras dos dez novos estádios é uma miragem igual a tantas outras em que Portugal é useiro e vezeiro. Só mesmo os incautos poderiam acreditar que os números avançados pelo governo iriam ter alguma semelhança com a realidade. Um pouco por todo o lado,  do Minho ao Algarve, as palavras de ordem são derrapagem, fardo e pesada herança. Em Lisboa, para dar mais sal a uma farsa que ainda agora começou, há a tragédia de um clube, o Benfica, que se mete num investimento de milhões com base em compromissos verbais de milhões e prédios para rendimento, na certeza bem lusitana de que ninguém, da câmara ao Governo, terá algum dia coragem política para negar o pagamento de uma obra que já começou e não pode parar, em nome de muitos votos e do tal desígnio nacional. E como vivemos numa ampla democracia, é natural que os donos dos outros nove estádios acompanhem com interesse o desenrolar da tragédia lisboeta para, de imediato, exigirem exactamente o mesmo aos generosos gestores do dinheiro de todos nós. De desgraça em desgraça, vão seguir-se comissões de inquérito parlamentares, denúncias ao Ministério Público, investigações da Judiciária, detenções de alguns larápios de areia e muitas lágrimas de orgulho nacional quando o Euro der o primeiro pontapé nas Antas.

A seguir ao Euro, com muitos milhões em muitos bolsos, virá o elogio da obra feita, a maravilha de Portugal ter estádios como os seus parceiros mais desenvolvidos da Europa, a crítica aos críticos que ousaram falar no desperdício, as prosas laudatórias sobre os benefícios para o futebol, o desporto em geral e, claro, para a juventude, uma das eternas destinatárias dos desmandos caríssimos praticados pelos adultos. Foi assim com o Centro Cultural de Belém, com a Expo’98, será assim com o já famigerado Euro 2004. É a saga lusa no seu melhor, escrita a cor-de-rosa ou laranja. Todas diferentes, todas iguais.

António Ribeiro Ferreira

 

Editorial 2                                                                                                               

Diário de Notícias, 19 de Janeiro  de 2002, Sábado

 

JUSTIÇA E HUMANIDADE

 

É importante reflectir sobre o enquadramento legal em vigor, fomentador da hipocrisia social e agente objectivo de uma desigualdade que castiga os mais fracos.

 

No Tribunal de Vila Nova de Gaia, aplicou-se ontem a lei. Nesta medida, meramente formal, fez-se justiça e deve mesmo reconhecer-se que houve, da parte de quem elaborou e proferiu a sentença, um esforço de moderação relativamente às 17 acusadas da prática de interrupção voluntária da gravidez e ao assistente social que , de forma desinteressada e sem compensação monetária procurava auxiliar mulheres confrontadas com uma opção dolorosa e portadora de consequências imprevisíveis ( os casos dos réus que obtinham lucro situam-se noutro plano e não cabem no âmbito deste comentário).

Não faz sentido, portanto, concentrar ondas de indignação nos juizes. O problema situa-se  a montante, num articulado legal cujo desajustamento face à realidade o tempo tem vindo a comprovar. É, para mais, uma lei profundamente cruel e penalizadora dos estratos sociais  mais carenciados. De facto, não é segredo para ninguém que as disponibilidades financeiras marcam a diferença. Por um lado, estão as mulheres que têm a possibilidade de resolver essas situações dramáticas com todas as garantias de uma assistência médica e hospitalar- já nem é preciso voar para Londres, basta ir a Espanha... Do outro, estão aquelas- muitas vezes jovens adolescentes- que se entregam, em clínicas clandestinas, a profissionais  de competência duvidosa.

A defesa da vida e o repúdio do aborto é uma posição de princípio consensual, que nos remete para uma prioridade das acções preventivas. Mas é a própria vida que nos ensina que isso não chega.- e provavelmente nunca chegará- para seleccionar problemas inerentes à própria condição humana.

Despoje-se este debate dos acontecimentos das emoções colectivas e procure-se deslocá-lo para o plano da consciência de cada pessoa. É importante reflectir sobre o enquadramento legal em vigor, fomentador da hipocrisia social e agente objectivo de uma desigualdade que castiga os mais fracos .

Não há justiça numa lei causadora de tanta desumanidade.

Mário Betencourt Resendes

 

 

 


 

EXERCÍCIOS

Ficha 1

OBJECTIVOS:  levar os alunos a interpretar correctamente o raciocínio do autor.

MATERIAL:  Editorial, “Saga Lusa

TIPO DE EXERCÍCIOS: questionário.

METODOLOGIA: trabalho individual

 

O título não induz que estamos em presença de um texto crítico. Todavia, depois da leitura do texto, ficamos a saber que estamos em presença de um texto muito crítico.

 

1          O que entendes por “Saga Lusa”?

2          Que relação há, então, entre o título e o corpo do texto?

3          Parece-te ajustado este título ao texto em questão? Justifica a tua resposta.

4          A que figura de estilo recorre o autor para pôr em prática a sua estratégia?

5          Que outro título escolherias para este texto e porquê?

 

Esta primeira ficha pretende levar o aluno a estabelecer relações entre o título e o texto. Pretende-se que, no final, o aluno se aperceba,  ao contrário de um texto informativo, que o título pode não nos dar imediatamente uma ideia do assunto do texto. Tratando-se de um texto argumentativo, temos a opinião do seu autor, existindo sempre uma carga de subjectividade inerente a este tipo de texto.

 

 

Ficha 2

OBJECTIVOS: levar os alunos a identificar o assunto.

MATERIAL:  Editorial, “Saga Lusa

TIPO DE EXERCÍCIO: escolha múltipla.

METODOLOGIA:   trabalho individual ou em grupo

 

1- Qual o assunto tratado no texto?

 

a) Falta de pessoas para trabalhar nas grandes obras públicas.

b) Falta de dinheiro para pagar o Euro 2004.

c) Falta de rigor do Estado nas obras públicas, nomeadamente no Euro 2004.

d) Falta de segurança nos estádios portugueses.

e) Falta de tempo para a construção dos dez estádios previstos para a realização do Euro 2004.

f) Falta de dirigentes desportivos para organizarem o Euro 2004.

 

2- Que invoca o autor para nos persuadir a não acreditar nos números avançados pelo governo?

 

a)      Que o Euro 2004 é um espectáculo menor.

b)      Que os portugueses estão contra a realização do Euro 2004.

c)       Que só os incautos é que acreditam nos números avançados pelo governo.

d)      Que Portugal não tem possibilidades económicas para realizar o Euro 2004.

e)      Que o governo normalmente não cumpre as promessas.

 

Com esta ficha, pretende-se que o aluno seja levado a identificar o assunto e um dos argumentos utilizados pelo autor na defesa da sua posição. Ainda é um contacto mínimo com a estrutura do texto argumentativo.

 

 

Ficha 3

OBJECTIVOS:   levar os alunos a interpretar vocábulos e  expressões mais pertinentes.

MATERIAL:   Editorial  Saga Lusa

TIPO DE EXERCÍCIOS: escolha múltipla.

METODOLOGIA:   trabalho individual ou em grupo

 

«O Euro 2004, o tal que foi apresentado aos portugueses como um 'desígnio nacional', já é um enorme espectáculo, ainda sem artistas da bola nos relvados e multidões nas bancadas.»

 

1.      O que entendes por “desígnio nacional” ?

 

a) Quando cada um pensa nos seus interesses individuais.

b) Quando há um projecto, uma ideia e uma vontade colectiva  de os realizar.

c) Quando as pessoas de um mesmo país pensam todas da mesma maneira.

d) Quando um governo quer realizar uma grande obra pública.

e) Quando recebemos a visita de um Chefe de Estado estrangeiro.

 

 

2-  “Um pouco por todo o lado, do Minho ao Algarve....”

 

Até ao 25 de Abril de 1974, utilizava-se uma expressão muito semelhante a esta. De entre as cinco possibilidades só uma é que está correcta. Indica-a.

 

a) do Minho aos Açores

b) do Minho a Macau

c) da Galiza a Timor

d) do Minho à Madeira

e) do Minho a Timor

 

Com este exercício pretende-se que os alunos raciocinem sobre alguns vocábulos e expressões que para eles podem não ser muito habituais.

 

 

Ficha 4

Objectivos: Fazer antecipações sobre o título e sobre o texto. Conduzir os alunos a descobrirem a informação necessária.

Material: Editorial “Justiça e Humanidade”.

Tipo de exercício: Antecipações e questões literais.

METODOLOGIA: trabalho individual e em grupo

 

(Sem ler o texto)

 

1- Quando te deparas com um texto com o título “Justiça e Humanidade”,  pensas que:

a) o autor conta uma história.

b) o autor dá uma informação.

c)  o autor manifesta a sua opinião.

             

2- Justifica a tua resposta , ainda sem recorrer ao texto.

3-  Lê, agora , o texto. Diz se as tuas previsões estavam certas. Se necessário, volta atrás para corrigires.

4-  Agora que já leste o texto responde a estas perguntas:

- Que acontecimento é referido?

- Qual a opinião do editorialista ? Justifica-a recorrendo ao editorial.

5-  Na lista que se segue, indica com (A) as razões que o autor apresenta para estar contra a lei em vigor sobre o ‘aborto’ e com (CA) os argumentos usados para a existência da lei:

a)      O problema está, intimamente, ligado à lei que beneficia as mais favorecidas e penaliza as mais carenciadas. _____

b)      Existem mulheres que recorrem a uma assistência hospitalar fora do país e outras que se sujeitam a clínicas clandestinas.  ____

c)       Deve ter-se uma atitude preventiva face ao aborto ._____

d)      Esta atitude de prevenção não é suficiente para  solucionar este problema ._____

 

6- Em grupo de quatro escolham apenas um dos grupos anteriores (A) ou (CA)  e modifiquem-no. Têm de transformar os argumentos em contra-argumentos e vice-versa.

 

Com este exercício pretende-se que os alunos cheguem à conclusão de que se trata de um texto argumentativo, mais concretamente de um editorial. Eles devem aperceber-se ainda que este texto é da responsabilidade de quem o assina. Um outro ponto que se pode salientar é a maneira como o texto está organizado, com argumentos e contra–argumentos, devendo os alunos reconhecê-los e perceberem que os argumentos servem para o editorialista expressar a sua opinião e que os contra-argumentos vão contra a sua posição.  

 

 

 

Ficha 5

Objectivos: Usar a argumentação em situação oral. Produzir texto argumentativo a partir de um debate.

Material: Editorial “Justiça e Humanidade”, organizar o espaço de aula de forma a constituir-se uma mesa redonda.

TIPO DE EXERCÍCIO: debate e produção de texto escrito.

METODOLOGIA: Trabalho de grupo / turma

 

 

A-     DEBATE

 

Com base no tema do editorial “Justiça e Humanidade”, o professor organiza a turma em dois grupos com posições distintas face ao aborto e um terceiro grupo, que constituirá a plateia, com a função de fazer perguntas.

1-Organização dos Participantes

            1.1-Escolha dos grupos;

            1.2-Escolha do moderador;

2-Descrição

            2.1-Atribuir 10/15 minutos aos grupos para organizarem as ideias;

            2.2-Escolha de um porta-voz por grupo;

3-Papel do moderador

            3.1-Iniciar o debate;

            3.2-Assegurar a circulação de ideias;

            3.3- Reformular pontos de vista, se necessário;

            3.4- Manter-se imparcial face à discussão;

            3.5-Deixar que as pessoas vão intervindo de maneira organizada;

            3.6-No final, deve apresentar as conclusões.

 

Com esta actividade pretende-se, por um lado, privilegiar o oral formal, pois este é um género não praticado, normalmente, pelos  alunos nas situações do quotidiano, cabendo esse papel à escola, mais concretamente ao professor de língua; por outro, levar os alunos a perceber que a argumentação também é usada na oralidade, em debates, discussões, palestras, entre outros. No final, pretende-se que os alunos reflictam sobre os argumentos utilizados no debate e compreendam que a argumentação está presente no nosso quotidiano, muitas vezes sem darmos por isso.

 

B-     PRODUÇÃO DE UM EDITORIAL

A partir dos argumentos utilizados no debate, cada grupo fica responsável pela elaboração de um editorial que manifeste a posição do grupo face ao tema do debate, que poderá ser publicado no jornal da escola.

 

 

Com este trabalho, por um lado, o professor pode  ter acesso ao que os alunos aprenderam com os exercícios anteriores; por outro lado, leva os alunos a trabalhar um género muito específico do texto argumentativo: o editorial.