Caracterização

O fundo antigo da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa é muito vasto e constituído por livros que vão do século XV ao século XIX. Todavia, o trabalho que agora se publica refere-se a edições dos séculos XV e XVI.

Não temos elementos que nos permitam saber como foram reunidos estes livros e como e quando entraram na Biblioteca da Faculdade. Não foram considerados neste projecto muitos outros livros antigos, que existem na Faculdade, pois não estão integrados nos nossos fundos bibliográficos. Do Legado do Prof. Leite de Vasconcelos apenas estão descritas algumas das obras que estavam depositadas na Biblioteca, mas não foi considerado o resto da colecção.

Deste catálogo fazem parte muitos livros impressos em Portugal. Desses livros o mais precioso é o Livro de vita Chisti, de Ludolfo de Saxónia, de 1495, feito pelos impressores alemães Nicolau de Saxónia e Valentim Fernandes de Morávia. Há muitos livros que versam temas religiosos ou estão relacionados com a Igreja Católica. Há obras de místicos como Luís de Granada e Santa Teresa de Jesus e outros de autores portugueses do século XVI como Gaspar Barreiros, Jerónimo Cardoso e Duarte Nunes de Leão, sobre temas diferentes da temática religiosa. Há obras importantes para a história de Portugal como as Ordenações Manuelinas ou os Estatutos da Universidade de Coimbra, promulgados por Filipe II.

Das obras impressas em várias cidades europeias, fazem parte sobretudo textos originais e traduções de autores clássicos entre eles Catão, Cícero, Píndaro, Euclides, Plínio, filósofos como Aristóteles, Platão e Santo Agostinho, escritores italianos como Ariosto, Boccaccio e Petrarca. Outros exemplares são de autores quinhentistas que se notabilizaram pela sua actividade em várias universidades europeias. Entre estes estão alguns portugueses como Aires Pinhel, Pedro Nunes, Jerónimo Osório e Diogo de Teive.

Muitos outros aspectos podiam ser destacados como os relacionados com os impressores, tradutores de várias obras, personalidades a quem foram dedicadas algumas edições e muitos outros aspectos importantes para a cultura europeia e portuguesa. O catálogo apresentado permitirá aos estudiosos do livro antigo uma fonte preciosa para as suas pesquisas.

Maria Laura Miranda
Assessora Principal

 

A Proveniência

A história do conjunto de obras digitalizadas no âmbito do trabalho que agora se divulga não poderia deixar de ser interessante.

De origens muito diversas, sabemos que se enquadram, maioritariamente, em grandes conjuntos que englobam outras obras do séc. XVI que não foram digitalizadas e obras dos séculos XVII, XVIII e XIX que formam o fundo antigo da Faculdade e que ainda não se encontram inseridas no catálogo e são, assim, na generalidade, desconhecidas dos utilizadores.

Esta modesta tentativa de encontrar pistas que permitam identificar a proveniência desta obras baseou-se numa análise às marcas nelas deixadas pelos antigos possuidores, aos carimbos e ex-libris que por vezes ostentam, bem como à sistematização dos diversos sistemas de cotas que apresentam e que foram anotados antes do restauro mecânico, permitindo assim que a substituição de guardas e a limpeza exterior não afectassem os dados originalmente disponíveis para este estudo.

O primeiro passo foi o de descobrir elementos comuns a várias obras. Cerca de metade dos 170 volumes digitalizados não os tinham, não sendo assim possível a sua inserção, a priori, num determinado conjunto. Nas restantes, é possível encontrar 3 grandes grupos: as obras que pertenceram ao Professor Augusto Soromenho, quase todas marcadas com o seu nome; as obras que pertenceram ao Prof. José Leite de Vasconcellos e marcadas com o carimbo correspondente ao seu legado; a maioria, porém, pertencia à antiga Biblioteca da Manizola e ostenta o número do arrolamento a que esta biblioteca foi submetida, no contexto de vicissitudes várias, que adiante esmiuçaremos.

A biblioteca do Professor Augusto Soromenho foi adquirida a 4 de Julho de 1878, aquisição esta que correspondia ao desejo do seu proprietário que, sentindo a morte próxima, propôs a sua compra ao Conselho Escolar, no Curso Superior de Letras, em Dezembro de 1877[1].

O Professor José Leite de Vasconcellos, por seu turno, deixou à Faculdade de Letras as suas obras de carácter filológico[2]. Encontram-se entre as que digitalizámos o Vocabulario de las do[s] lenguas toscana y castellana, de Cristobal de las Casas e o Dictionarium latino lusitanicum et vice versa lusitanico latinu[m] de Jerónimo Cardoso.

A Biblioteca da Manizola foi por muitos considerada como uma das maiores bibliotecas particulares do seu tempo. O seu último possuidor, José Bernardo Gama Lobo, Visconde da Esperança, tinha manifestado, em vida e no testamento, o desejo de doar o valioso espólio à Biblioteca Pública de Évora, cidade perto da qual se situava a Quinta da Manizola. Faleceu em 1931, antes de concretizada a doação. Após a sua morte, os herdeiros impugnaram o testamento, já que a biblioteca correspondia a mais de metade dos bens do Visconde[3].

Em 1936 descrevia Júlio Dantas o arrolamento minucioso da colecção, feito no mesmo ano, a 859 obras raras, 56 incunábulos, 13 edições monumentais e 596 códices[4]. Havia ainda mais cerca de 20 mil volumes. O arrolamento destinava-se a impedir a venda de obras, sobretudo para o estrangeiro e, no caso de venda em Portugal, a garantir que, nos termos da lei, o Estado tinha o direito de compra. Durante anos, o estado negociou com os então proprietários no sentido de se concluir a venda.

Em 1952, os Professores Gonçalves Rodrigues e Artur Moreira de Sá, da FLUL, visitaram a Manizola e encontraram a biblioteca “entregue aos ratos” e em avançado estado de degradação. Instaram então com o Governo para que a adquirisse para com ela se constituir o núcleo da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cujas novas instalações estavam já a ser planeadas[5].

Em 1953 a Fazenda Nacional comprou finalmente a Biblioteca mas não era certo ainda o seu destino. Na Assembleia Nacional gerou-se um aceso debate sobre o assunto. O deputado Bartolomeu Gromicho defendia, na sessão de 15 de Dezembro do mesmo ano, o desejo do último proprietário de que a biblioteca permanecesse em Évora, desejo manifestado em testamento, mas anulado em tribunal. Contrapunha o Professor Mário de Albuquerque, da FLUL, na sessão de 27 de Janeiro de 1954 que um acervo de tanto valor deveria servir o bem comum e que, assim sendo, deveria ser remetido à FLUL, onde estaria acessível a um consideravelmente maior número de estudantes, professores e intelectuais. A Biblioteca da Manizola acabou por ser integrada na Biblioteca Pública de Évora em 1955[6].

O Arquivo Histórico da FLUL tem, em sua posse, o auto de entrega original, de 29 de Dezembro de 1958 que transfere para a Faculdade de Letras todas as obras da Manizola que fossem exemplares repetidos de obras já existentes na Biblioteca Pública de Évora e também os exemplares repetidos na própria Manizola. Ao todo, 343 livros. O despacho de arrolamento dos exemplares repetidos datava já de 1955. Encontra-se aqui, então, o critério que tentou conciliar as duas posições em conflito nos debates anteriores. A Faculdade não recebeu qualquer manuscrito da mesma colecção.

Antes, porém de passarem para as mãos dos três anteriores insignes proprietários e bibliófilos, todos nascidos no século XIX e falecidos no século XX, estas obras tiveram cerca de 300 anos de andanças mais ou menos documentadas pelas marcas de posse que lhes foram apostas. Muitas passaram por alfarrabistas e livreiros, motivo pelo qual por vezes têm o preço anotado, ou comentários como “muito raro”.

Existem anteriores proprietários ilustres, mas também desconhecidos. Entre os primeiros destacamos: Cristóvão Alão de Morais, Fr. João Turriano, engenheiro-mor do Reino[7] , arcebispos de Évora, tais como D. Teotónio de Bragança e Augusto Eduardo Nunes, bibliófilos como José Maria Nepomuceno. Outras obras vieram das livrarias de conventos, tais como Santa Cruz de Coimbra, a Cartuxa de Évora, o mosteiro de Grijó e diversos colégios da Companhia de Jesus. Finalmente, existem ainda 3 obras que pertenceram à Escola Normal Superior, que funcionou, durante algum tempo, nas instalações da Faculdade de Letras.

O nosso conhecimento sobre esta matéria tem mais lacunas do que certezas. Mas, agora que este notável conjunto de obras se encontra acessível a todos, estão criadas as condições para que este estudo seja aprofundado e que seja restituída à Biblioteca da Faculdade de Letras uma parte importante da memória do seu património.

Marta Páscoa
Investigadora

 


[1] AGUILAR, Manuel Busquets de – O Curso Superior de Letras (1858-1911), s.e., Lisboa, 1939, p. 357.

[2] GUIMARÃES, Prof. Oliveira – Discursos de homenagem ao Prof. Leite de Vasconcellos. Revista da Faculdade de Letras, Tomo VIII, 2.ª Série (1942) p. 146.

[3] VAZ, Francisco António Lourenço – Os bibliófilos eborenses e a Biblioteca Pública de Évora (1805-1955), disponível em http://home.uevora.pt/~fvaz/Publica%E7%F5esProjectoCen%E1culo/2007-%20BIBLI%D3FILOS%20EBORENSES%20e%20a%20Biblioteca%20P%FAblica%20de.pdf, acedido em 26/10/07.

[4] DANTAS, Júlio, Crónica – O arrolamento da Livraria da Manizola. Anais das bibliotecas e Arquivos, Vol. XII, n.º 45-46, p. 5-8, disponível em: http://purl.pt/258/2/bad-1510-v_11-12/bad-1510-v_11-12_item2/P7.html , acedido em 27/10/2007.

[5] Diários das sessões da Assembleia Nacional, diário de 27/01/1954, p. 277, disponível em http://debates.parlamento.pt/page.aspx?cid=r2.dan , acedido em 27/10/2007.

[6] VAZ, Francisco António Lourenço, Ibidem.

[7] Cf. ABREU, Susana Matos – Livros e saber prático de um arquitecto do século XVII: a biblioteca de Fr. João Turriano e o mosteiro novo de Santa Clara em Coimbra. Revista da Faculdade de Letras, Porto, Vol. 2, I Série (2003), p. 803-822, disponível em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2943.pdf, acedido em 27/10/2007.