À Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, enquanto instituição de ensino superior que se dedica ao cultivo do saber e à formação humana, cívica, científica e cultural da sua comunidade, compete promover e favorecer o acesso à cultura e ao conhecimento.

Tendo em consideração estes desígnios, a Divisão da Biblioteca da FLUL -  unidade responsável pelo tratamento técnico, preservação e divulgação do acervo documental que alberga - iniciou em Novembro de 2005, através do seu Arquivo Histórico e com o apoio do Programa Operacional da Cultura, um ambicioso projecto de tratamento bibliográfico, digitalização, restauro e difusão de parte do seu valioso e notável fundo antigo dos séculos XV e XVI.

Este projecto teve os seguintes objectivos:

Para o efeito, o projecto envolveu o conjunto de investimentos necessários ao desenvolvimento das acções de tratamento técnico documental, conservação e restauro, digitalização e disponibilização pública dos suportes de divulgação através da Internet. Face à amplitude da tarefa, optou-se por uma solução mista, de apoio e coordenação por parte dos serviços da FLUL, por um lado, e contratação de serviços a empresas especializadas em regime de outsourcing, por outro.

O trabalho que agora se divulga diz respeito a 281 edições reunidas em 269 volumes, maioritariamente quinhentistas (Gráfico 1), existentes no riquíssimo acervo à guarda da Biblioteca da FLUL e tratadas no âmbito do trabalho que agora se publica. Sobressaem os impressos em prelos nacionais  (Gráfico 2) e, concretamente, nas casas tipográficas de Lisboa e Coimbra (46 e 30, respectivamente). Das tipografias estrangeiras, existe igualmente um número significativo de edições de Veneza e de Lião (Gráfico 3). Este conjunto distribui-se, todavia, pelas seguintes línguas de publicação: 140 em latim (50%), 70 em castelhano (25%) e 44 (16%) em português (Gráfico 4). Estas obras, de formato variado (Gráfico 5 )versam, na sua grande maioria, sobre temas religiosos (Gráfico 6) e a esmagadora maioria encontra-se publicada na língua do texto original (Gráfico 7).

Sendo óbvia a necessidade de cooperação entre os vários projectos que visam a descrição e digitalização de livro antigo, e tendo em atenção o papel da Biblioteca Nacional de Portugal enquanto membro do grupo de acompanhamento do Programa Operacional da Cultura, observaram-se as normas por ela definidas para o tratamento destes materiais, por forma a garantir a qualidade e a uniformidade da descrição bibliográfica. O tratamento documental consistiu na uniformização e validação de 89 registos bibliográficos oriundos da Base Nacional de Dados Bibliográficos - PORBASE, e na catalogação integral das espécies sem tratamento prévio, perfazendo um total de 281 novos registos normalizados criados. Em ambos os procedimentos recorreu-se, invariavelmente, ao exame directo do exemplar. A descrição bibliográfica seguiu as Regras Portuguesas de Catalogação e as notas técnicas do SIBUL. Especificamente para a descrição de livro antigo, observou-se a ISBD(A) Descrição Bibliográfica Internacional Normalizada das Monografias Antigas e recorreu-se também ao manual Directivas para uso do UNIMARC no tratamento de monografias antigas (BN, 2001). A estrutura informatizada do registo bibliográfico obedeceu ao formato UNIMARC.

Depois de previamente definidos os critérios de pertinência do material a digitalizar - raridade e estado de conservação das espécies, inexistência de cópias digitais conhecidas e domínio público das obras em causa -, e desenvolvidas as pesquisas necessárias por forma a evitar duplicação de reproduções digitais, o processo avançou após a realização de testes de aceitação provisória das imagens, obedecendo a requisitos técnicos ditados pelas boas práticas de digitalização comummente definidas e aceites neste domínio. Para além do óbvio significado que um conjunto de obras desta natureza assume numa escola de Letras, e do intuito claro de iniciar o tratamento técnico documental das colecções de livro antigo à guarda da Biblioteca da FLUL valorizando o livro quinhentista, procurou-se que o material digitalizado ilustrasse as obras de tipografia portuguesa (68) e espanhola (35) existentes, as edições em língua castelhana (8) e as que versam sobre Portugal (3). Para além disso, foram igualmente seleccionados todos os incunábulos da colecção (9). As restantes obras (52) foram consideradas de interesse geral (Gráfico 8).

A campanha de digitalização decorreu nas instalações da Biblioteca da FLUL e produziu 97067 imagens (62% da colecção). Foram digitalizadas 175 edições com páginas de formatos variados (A3 a A6). A captura digital das imagens fez-se através de scanners planetários equipados com compensador de lombadas.

As imagens digitalizadas encontram-se armazenadas em servidor próprio instalado no Centro de Dados da Universidade de Lisboa, e o acesso aos conteúdos digitais é duplamente garantido:

Na medida que esta iniciativa corporiza ainda uma participação activa e empenhada no projecto Patrimonia - Livro Antigo promovido pela Biblioteca Nacional de Portugal, as imagens das obras cujos registos bibliográficos integram a Base Nacional de Dados Bibliográficos - PORBASE ficarão igualmente disponíveis na Biblioteca Nacional Digital e, por essa via, estarão presentes em serviços como o TEL - The European Library e, num futuro próximo, na Biblioteca Digital Europeia.

As operações de higienização, conservação e restauro observaram os procedimentos descritos nas normas e convenções internacionais. Em função do seu estado de conservação, 162 exemplares foram alvo de restauro químico(1) e mecânico (2).

Os resultados do projecto agora concluído - Património bibliográfico e documental da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: um projecto de conservação, digitalização e difusão - traduzir-se-ão nas seguintes publicações e eventos:

Na presente edição electrónica - Catálogo de incunábulos e impressos raros (sécs. XV-XVI) na colecção da Faculdade de Letras de Lisboa - o acesso à descrição bibliográfica pode ser feito em modo texto (páginas estáticas com a apresentação sequencial dos registos ordenados por entrada principal) ou através da interface de pesquisa (requer instalação). O acesso aos conteúdos digitais é feito a partir da imagem da folha de rosto que surge associada ao respectivo registo bibliográfico, sendo possível ao utilizador folhear virtualmente a obra, avançando nela página a página, ou consultar directamente uma das partes que a constituem, recorrendo ao índice que a indexa por títulos de partes (capítulos ou artigos), nome de autores ou termos de indexação.

Para além do catálogo propriamente dito, extraíram-se também nove índices - de autores principais, de autores secundários, de antigos possuidores, de impressores, editores e livreiros, cronológico e geográfico (ambos em estrutura multi-nível, ordenado por século/país e, neste, por ano/local de edição/publicação), de obras anónimas, de títulos e de assuntos - que, através do número de ordem do registo na base de dados bibliográficos (MFN), remetem para as respectivas referências bibliográficas.

Por último, uma palavra de agradecimento a todos aqueles que, directa ou indirectamente, estiveram envolvidos na feitura deste trabalho.

Em primeiro lugar, à «equipa» mais directamente envolvida no projecto:

À Marta Páscoa, que assegurou temporariamente a coordenação do projecto com uma dedicação e empenho merecedores de registo, sendo ainda de salientar a investigação, minúcia e competência técnica colocadas no estudo da proveniência das obras desta colecção seleccionadas para digitalização;

Ao António Manuel Freire, da empresa Bibliosoft, pela disponibilidade e colaboração demonstradas nos trabalhos de conversão e processamento dos registos bibliográficos; de elaboração de dados estatísticos; de adaptação e parametrização da aplicação informática de pesquisa bibliográfica (OPAC - Módulo de Pesquisa Local); de criação de índices e desenvolvimento criativo dos layouts gráficos dos suportes de divulgação (catálogos digitais e sítio web para disponibilização pública dos resultados do projecto) e, em particular, pelo apoio, incentivo e colaboração, pessoal e institucional, prestados no âmbito deste projecto, a todos os títulos inexcedível.

À Ana Correia, à Ana Fernandes, à Diana Marques, à Lúcia Tavares e à Suzete Lemos Marques que, em regime de voluntariado, emprestaram um contributo inestimável a várias tarefas do tratamento documental e controle de qualidade das imagens digitalizadas.

Outros agradecimentos são igualmente devidos:

Ao Prof. Doutor Arnaldo Espírito Santo, vice-presidente do Conselho Directivo da FLUL, pelo desafio lançado para assegurar a coordenação técnica deste projecto e pela confiança e apoio demonstrados;

Ao Prof. Doutor Aires Augusto do Nascimento, director do Centro de Estudos Clássicos da FLUL, pela colaboração científica, pessoal e institucional, prestada no âmbito deste projecto, designadamente na selecção e organização das obras a digitalizar e a figurar na mostra bibliográfica, pela incansável disponibilidade e pelo incentivo e apoio sempre presentes;

À Dra. Maria Fernanda de Campos, no exercício das funções de sub-directora da Biblioteca Nacional de Portugal, pela inestimável colaboração prestada no âmbito deste projecto;

À Dra. Maria Laura Miranda, no exercício das funções de Chefe de Divisão da Biblioteca, pela colaboração, apoio técnico e profissionalismo demonstrados;

À Prof.ª Doutora Maria Leonor García da Cruz e ao Prof. Doutor Bernardo Sá Nogueira, pelo contributo dado na identificação do documento manuscrito em francês antigo dos inícios do século XVI encontrado no verso da capa da obra de 1570, Sanctiones apostolicae extrauagantes et regulae cancellariae sanctissimi domini nostri Domini Pij diuina prouidentia Papae Quinti & quaedam aliae sanctiones aliorum summorum pontificum admodum vtiles

À Márcia Lameirinhas, da Unidade de Projectos e Candidaturas da Divisão de Gestão Financeira e Patrimonial da FLUL, pelo apoio institucional constantemente renovado;

Ao Rui Palmeira e ao Jhonny Oliveira, do Núcleo de Informática e Comunicações da Universidade de Lisboa, pelo apoio técnico dado na criação e manutenção da infra-estrutura tecnológica necessária à gestão do projecto;

Aos Serviços de Documentação da Reitoria da Universidade de Lisboa, pela colaboração e apoio técnico dispensados;

À Dra. Dália Guerreiro e à Dra. Maria Isabel Roque, da empresa Digicult, ao Dr. Paulo Leitão e ao Eng.º José Borbinha, pela competência técnica geral demonstrada, pela disponibilidade e pelos conhecimentos transmitidos no desenvolvimento e gestão de projectos de digitalização.

 

Cristina Faria
Arquivo Histórico da FLUL

 


[1] Por restauro químico entendem-se as operações de desacidificação e higienização das obras, as quais podem ser efectuadas por imersão ou por vaporização de solução aquosa de hidrocarbonato de magnésio (processo de hidrólise).
[2] Por restauro mecânico entendem-se as operações técnicas de colmatação de falhas estruturais do miolo com Filmoplast R, papel japonês ou lifecasting, a reconstrução da costura com limpeza dos festos e dos cadernos, remoção da cola à base de gordura animal, hidro-limpeza, reconstrução da capa com neutralização da costura e colmatação de falhas estruturais com enxertos de pele ao tom da original.